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30/10/2026
Escolher uma brincadeira com um amigo exige decisões que nem sempre são simples para uma criança. É preciso ouvir uma proposta diferente, combinar regras e aceitar que a própria vontade não será atendida o tempo todo. Nessas situações, a amizade oferece oportunidades para desenvolver habilidades sociais e emocionais, como cooperar, comunicar desejos e lidar com frustrações.
A convivência também permite perceber os efeitos das próprias atitudes. Ao interromper um colega, recusar qualquer sugestão ou ajudá-lo em uma dificuldade, a criança observa reações e começa a compreender o que favorece ou prejudica a relação. Esse aprendizado é gradual e depende tanto das experiências entre amigos quanto da orientação dos adultos.
“Quando duas crianças precisam decidir juntas como brincar, elas exercitam a escuta, aprendem a explicar o que querem e a considerar a vontade do colega”, explica Carol Lyra, diretora geral do Colégio Anglo Sorocaba, de Sorocaba (SP).
Nos primeiros anos, as amizades costumam se formar pela proximidade e pela repetição de experiências. Brincar no mesmo espaço, compartilhar materiais e gostar de atividades semelhantes favorece as aproximações. Aos poucos, a criança passa a demonstrar preferências e a procurar determinados colegas com maior frequência.
Na Educação Infantil, brincadeiras de faz de conta ajudam a desenvolver essa convivência. Para brincar de mercado, por exemplo, as crianças precisam combinar quem vai comprar, quem vai atender e como usar os objetos disponíveis. A interação exige comunicação e ajustes quando alguém deseja mudar de papel.
Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, confiança, reciprocidade e expectativas sobre o comportamento dos amigos ganham importância. Podem aparecer ciúmes, cobranças por exclusividade e incômodo quando um colega se aproxima de outras pessoas. Cabe aos adultos explicar que ter outros amigos não significa abandonar uma relação.
Também é importante respeitar diferentes formas de socialização. Algumas crianças preferem grupos maiores; outras se sentem bem com um ou dois amigos. A quantidade de vínculos, isoladamente, não indica a qualidade da convivência.
Um convite para brincar, uma discussão ou a ausência de um amigo provocam sentimentos que a criança ainda está aprendendo a reconhecer. Alegria, tristeza, raiva e saudade podem surgir antes que ela consiga explicar o que sente.
O adulto pode ajudar ao relacionar a emoção ao acontecimento: a criança ficou frustrada porque queria escolher a brincadeira ou triste porque o colega não pôde visitá-la. Nomear o sentimento facilita a comunicação e permite pensar em respostas que não envolvam gritos ou agressões.
A amizade também cria oportunidades para desenvolver empatia. Ao perceber que um colega se machucou ou ficou chateado, a criança pode aprender a perguntar o que aconteceu, oferecer ajuda e respeitar quando ele precisa de espaço. Essa capacidade se desenvolve com exemplos e orientações concretas, sem exigir que os pequenos compreendam imediatamente todas as reações dos outros.
Ser ouvido e acolhido pelos colegas pode fortalecer a segurança para participar de conversas e atividades escolares. Nas tarefas em grupo, explicar uma ideia, comparar soluções e pedir ajuda também favorece a aprendizagem. Ainda assim, é necessário ensinar que a aceitação dos amigos não deve depender de concordar com tudo ou tolerar atitudes que machucam.
Disputas por brinquedos, desacordos sobre regras e dificuldades para esperar a vez fazem parte da convivência infantil. A intervenção do adulto deve considerar a intensidade do episódio e a capacidade das crianças de conversar.
Em um desentendimento sem agressão, é possível se aproximar, ouvir cada versão e ajudar os envolvidos a identificar o problema. Perguntar o que cada um queria e quais alternativas seriam possíveis costuma ser mais útil do que determinar rapidamente quem está certo.
Se houver agressão, a prioridade é interrompê-la e proteger quem foi atingido. Depois, com as crianças mais tranquilas, o adulto pode retomar o ocorrido e orientar uma reparação, como devolver um objeto, ajudar a reorganizar o que foi destruído ou reconhecer uma atitude inadequada. Carol Lyra observa: “O adulto pode ajudar a criança a dizer o que a incomodou e a ouvir o amigo, sem resolver por ela todos os pequenos desacordos”.
Também cabe explicar que discordar não encerra necessariamente uma amizade. Ao mesmo tempo, ninguém precisa continuar uma brincadeira em que se sente desrespeitado. Expressar limites e procurar ajuda são recursos importantes para uma convivência segura.
Em casa, os responsáveis podem abrir espaço para relatos sobre os colegas, sem transformar a conversa em interrogatório. Perguntar como foi uma brincadeira ou o que aconteceu no intervalo ajuda a conhecer as relações. Encontros e atividades compartilhadas também oferecem oportunidades de aproximação, respeitando o interesse da criança.
Na escola, observar quem participa, quem tenta entrar nas brincadeiras e quem é repetidamente afastado permite identificar dificuldades que nem sempre chegam aos adultos por meio de relatos. Variar a composição dos grupos pode ampliar o contato entre colegas, sem obrigá-los a estabelecer amizades.
Preferir alguns momentos sozinho é diferente de querer companhia e sofrer por não conseguir participar. Mudanças persistentes de comportamento, medo de encontrar determinados colegas, isolamento acompanhado de tristeza ou relatos frequentes de humilhação exigem atenção.
Nessas situações, família e escola devem compartilhar observações concretas, identificar quando e onde os episódios ocorrem e combinar medidas de proteção e acompanhamento. Depois da intervenção, é necessário verificar se a criança voltou a participar das atividades com segurança e se os comportamentos que provocavam sofrimento realmente cessaram.
Para saber mais sobre o assunto, visite: https://leiturinha.com.br/blog/amizade-na-infancia/ e https://pastoraldacrianca.org.br/amizade