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18/02/2026
Crianças e adolescentes não aprendem em linha reta. O processo de construção do conhecimento envolve tentativas, ajustes e recomeços. Quando um estudante erra, ele não fracassa: revela como está pensando, quais hipóteses está testando e onde precisa de apoio. Essa leitura do erro como etapa natural da aprendizagem transforma a sala de aula em espaço de investigação, não de julgamento.
Durante décadas, o modelo escolar brasileiro privilegiou a verificação isolada de resultados. Provas e notas serviam para classificar, comparar e premiar quem acertava na primeira tentativa. Esse sistema criou efeitos conhecidos: medo de se expor, redução da curiosidade e uma relação instrumental com o estudo. Alunos aprendiam para "passar", não para compreender. O erro virava rótulo, não pista para intervenção pedagógica.
A mudança começa quando a escola substitui a lógica da punição pela lógica do diagnóstico. A avaliação continua necessária, mas com outra finalidade: identificar como cada estudante raciocina, qual conceito ainda não se consolidou e qual situação pode provocar avanço real. Essa abordagem não elimina critérios nem relativiza objetivos. Pelo contrário, torna o rigor possível sem humilhação.
A psicologia do desenvolvimento oferece fundamentos sólidos para essa mudança. Jean Piaget demonstrou que a aprendizagem acontece quando a pessoa assimila informações novas aos esquemas que já possui ou quando acomoda esses esquemas para lidar com situações que não se ajustam ao que sabia. O desequilíbrio diante do erro funciona como gatilho para reorganizar o pensamento.
Lev Vygotsky, por sua vez, apresentou o conceito de zona de desenvolvimento proximal: o espaço entre o que o estudante consegue fazer sozinho e o que consegue realizar com apoio. O professor atua nesse intervalo, oferecendo perguntas, exemplos e desafios que ampliam as possibilidades do aluno. Esses dois referenciais não competem. Juntos, sustentam uma prática que respeita ritmos individuais e, ao mesmo tempo, provoca desafios possíveis.
"Quando compreendemos que o erro revela o raciocínio em construção, deixamos de ver o engano como problema e passamos a usá-lo como ferramenta de ensino", afirma Carol Lyra, diretora geral do Colégio Anglo Sorocaba. Essa perspectiva exige do professor a habilidade de escutar como os alunos pensam, identificar padrões e ajustar intervenções.
Nem todo engano tem a mesma natureza. Há erros de atenção, que desaparecem quando o estudante revisa com calma. Há equívocos de interpretação do enunciado, que exigem treino em compreensão de texto. Há falhas conceituais, que pedem retomada do conteúdo com outras explicações. E existem os erros construtivos, nos quais o aluno usa lógica coerente com o que sabe para resolver problemas novos.
Nesse último caso, o papel do professor muda. Em vez de apenas corrigir, ele valoriza a hipótese do estudante, mostra seus limites e propõe comparações que levam ao refinamento da ideia. Essa interação transforma o erro em material de estudo e ensina o aluno a pensar sobre o próprio pensamento.
A troca entre pares acelera esse processo. Quando grupos debatem soluções, cada participante precisa argumentar, ouvir o outro e revisar escolhas. O ambiente deixa de premiar o "acerto de primeira" e passa a valorizar a consistência do raciocínio. Com menos receio de errar em público, os estudantes testam, perguntam e tentam novamente.
Para que o erro se torne instrumento de aprendizagem, a escola precisa revisar sua cultura avaliativa. Provas continuam úteis, mas não podem ser o único recurso. Trabalhos de projeto, produções escritas, explicações orais e devolutivas curtas ao longo do bimestre formam um retrato mais fiel do percurso de cada aluno.
O feedback objetivo ocupa o centro dessa mudança. Uma devolutiva que mostra onde o raciocínio funcionou e onde precisa de ajuste orienta o próximo passo. Comentários vagos desmotivam. Comentários precisos ensinam. Quando a escola organiza rotinas regulares de devolutiva, a sala se torna mais participativa e o estudo em casa ganha direção.
A nota final, quando necessária por exigência institucional, passa a ser síntese de um percurso acompanhado, não veredito isolado. O estudante entende o que já domina, o que ainda não domina e o que pode fazer para avançar. Essa clareza desenvolve autorregulação: a capacidade de controlar impulsos, revisar etapas críticas e decidir quando pedir ajuda.
Os benefícios comportamentais e socioemocionais são evidentes. Ao lidar com o erro de forma orientada, os estudantes desenvolvem tolerância à frustração. Percebem que a dificuldade é estágio, não sentença. Fortalecem autoconfiança ao notar progresso mensurável. Aprendem a regular emoções em momentos de prova, apresentação ou conflito.
A motivação também se transforma. Quando o estudo faz sentido, o engajamento deixa de ser puramente externo. Projetos e práticas conectam teoria e ação. O estudante enxerga a utilidade do que aprende e se interessa pelo processo, não apenas pelo resultado imediato. Essa lógica pode transitar para qualquer disciplina, desde que a proposta didática convide ao raciocínio e permita diferentes caminhos para chegar à resposta.
A mudança de cultura também protege a autoestima. Quando o erro deixa de etiquetar pessoas e passa a qualificar respostas, a comparação improdutiva perde força. Os alunos se veem como autores em processo e reconhecem o valor do esforço contínuo. Isso reduz ansiedade crônica antes de avaliações e melhora o clima de sala.
Pais e responsáveis influenciam a relação da criança com o erro quando reagem com calma, pedem que o filho explique o que tentou fazer e valorizam a persistência. A conversa em casa não precisa transformar pais em professores. Basta que o adulto se interesse, ajude a organizar a rotina e evite rótulos.
Dizer que alguém "não nasceu para matemática" ou "é ruim de redação" cristaliza identidades e limita escolhas. Dizer que um conteúdo ainda não ficou claro, propor retomadas curtas e acompanhar prazos ajuda a construir constância. Perguntas simples sobre o que foi aprendido no dia e sobre o que precisa de reforço sustentam o acompanhamento familiar.
O professor, por sua vez, ajusta a intervenção ao nível de autonomia do estudante. Em alguns casos, uma pergunta dispara a revisão. Em outros, é preciso modelar um procedimento e convidir a turma a repetir com variações. A clareza sobre o objetivo de aprendizagem do dia faz diferença. Quando a turma sabe o que está tentando alcançar, fica mais fácil entender por que determinada resposta ainda não atende ao critério.
A gestão pode apoiar essa transformação ao criar rotinas que sustentem o acompanhamento. Reuniões pedagógicas focadas em análise de produções dos alunos, combinadas com momentos de planejamento conjunto, alinham expectativas. Políticas internas que reservem tempo para devolutivas mostram que a instituição leva a sério a avaliação formativa.
Quando o calendário pressiona apenas por número de provas e prazos de lançamento de notas, a prática formativa perde espaço. Quando o calendário protege momentos de observação, feedback e recuperação, a aprendizagem melhora. A escola que ensina apenas para testes padronizados empobrece a experiência dos alunos e desvaloriza competências que não cabem em prova única.
A linguagem emocional que circula nos corredores também importa. Deboche e ironia bloqueiam a participação. O caminho oposto não é ambiente permissivo, mas ambiente respeitoso, com limites claros e abertura para perguntar. O estudante entende que pode errar no processo, mas também entende que deverá revisar, reescrever e apresentar novamente quando necessário.
A escola que assume essa postura humaniza o professor. Docentes erram. Planejam atividades que não funcionam, subestimam o tempo, escolhem exemplos pouco claros. Quando admitem equívocos e mostram como corrigem, dão exemplo de responsabilidade intelectual. O aluno aprende que conhecimento é construção coletiva e que qualquer adulto sério revê posição diante de bons argumentos.
Na prática, a transformação começa com gestos simples. O professor devolve uma avaliação com comentários específicos e convida a turma a refazer apenas a parte em que houve falha conceitual. A equipe de área combina critérios comuns de qualidade e compartilha com os alunos antes da atividade. A escola cria espaço regular para revisão, com apoio de plantões ou tutoria.
Com o tempo, a própria turma passa a identificar padrões de erro. Alunos notam que caem nos mesmos tropeços e criam estratégias de checagem. Esse "olhar para o próprio erro" é o início da autorregulação. O estudante aprende a controlar o impulso de responder rápido, a revisar uma etapa crítica e a decidir quando pedir ajuda. Essa habilidade vale para a vida toda.
O resultado compensa. Salas mais engajadas, alunos mais autônomos e professores mais próximos do pensamento da turma formam um ciclo virtuoso. A escola ensina conteúdos, mas ensina também como aprender, como pensar criticamente, como lidar com frustração, como insistir com método. O estudante sai preparado para enfrentar situações novas porque praticou exatamente isso: formular hipóteses, testar, errar, ajustar e seguir.
Para saber mais sobre aprendizagem, visite https://brasil.bettshow.com/bett-blog/pedagogia-erro e https://institutoayrtonsenna.org.br/aprender-errando-como-a-resiliencia-emocional-contribui-para-a-motivacao-para-aprender/