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09/01/2026
A comunicação digital transformou profundamente os hábitos linguísticos das novas gerações. Abreviações como "vc", "tbm" e "pq" tornaram-se tão comuns nas telas que muitos estudantes enfrentam dificuldades para reconhecer os limites entre a linguagem informal das redes sociais e a escrita exigida em contextos acadêmicos. Essa confusão compromete redações, provas e trabalhos escolares, criando um desafio educacional que exige atenção de educadores e famílias.
O internetês nasceu da necessidade de digitar rapidamente em teclados e telas sensíveis ao toque. Eliminar vogais, trocar letras por números e suprimir acentuação facilitam conversas instantâneas, mas criam um padrão visual que compete diretamente com a memória ortográfica desenvolvida na escola. Estudantes em fase de alfabetização e letramento são especialmente vulneráveis: a exposição constante a formas gráficas simplificadas pode enfraquecer o reconhecimento da grafia correta.
Pesquisas em neurociência educacional demonstram que a escrita manual ativa áreas cerebrais relacionadas à memória e ao processamento linguístico de maneira mais intensa que a digitação. Quando crianças escrevem à mão, registram não apenas palavras, mas também padrões motores que reforçam o aprendizado ortográfico. A substituição progressiva do caderno pela tela, portanto, representa uma perda significativa para o desenvolvimento cognitivo.
Professores relatam situações em que expressões típicas das mensagens digitais aparecem em redações formais. Um estudante pode escrever "naum sei" em vez de "não sei" ou usar "kd" no lugar de "cadê" sem perceber o erro. Essa automatização de formas incorretas revela que o cérebro adolescente, exposto diariamente ao internetês, passa a reconhecê-lo como padrão válido.
Carol Lyra, diretora geral do Colégio Anglo Sorocaba, observa que "o domínio da escrita formal não exige que os jovens abandonem a linguagem digital, mas sim que compreendam os contextos apropriados para cada registro linguístico". A capacidade de alternar entre diferentes níveis de formalidade representa uma competência fundamental para a vida acadêmica e profissional. Um adolescente precisa saber que a mensagem enviada ao grupo de amigos opera sob regras diferentes daquelas aplicadas em uma redação do Enem, em um e-mail para professores ou em relatórios de estágio. Essa habilidade, chamada de adequação discursiva, não se desenvolve espontaneamente: precisa ser ensinada, praticada e constantemente reforçada.
Trabalhar com gêneros textuais diversos ajuda estudantes a reconhecer essas diferenças. Analisar notícias jornalísticas, artigos científicos, crônicas literárias e postagens em redes sociais permite comparar características estruturais, vocabulário e níveis de formalidade. Quando o aluno identifica essas variações, passa a compreender que a língua portuguesa funciona como um conjunto de ferramentas adaptáveis a diferentes situações comunicativas.
O contato frequente com textos bem escritos constitui a base mais sólida para o desenvolvimento ortográfico. Quanto mais um estudante lê livros, jornais, revistas e materiais acadêmicos, maior se torna seu repertório linguístico. A exposição à escrita formal cria memória visual para palavras, expressões e estruturas sintáticas, funcionando como contrabalança ao internetês.
Literatura infantojuvenil, clássicos adaptados, reportagens e artigos de opinião oferecem modelos de uso correto da língua. Esse repertório permite que o cérebro reconheça instantaneamente quando uma palavra está grafada de maneira inadequada. Um leitor habitual percebe que "concerteza" está errado porque a expressão "com certeza" aparece corretamente em dezenas de textos que leu anteriormente.
Famílias podem estimular esse hábito criando rotinas de leitura compartilhada, frequentando bibliotecas e presenteando com livros adequados à faixa etária. Conversas sobre histórias lidas, personagens favoritos e trechos marcantes transformam a leitura em experiência prazerosa, não em obrigação escolar.
Recuperar a prática da escrita à mão representa uma estratégia eficaz contra os efeitos negativos do internetês. Produzir diários, cartas, poemas, resumos e redações em cadernos exige atenção à ortografia, à pontuação e à organização textual. O ritmo mais lento da escrita manual permite reflexão sobre escolhas linguísticas, algo que a velocidade da digitação frequentemente elimina.
Atividades como correspondência entre turmas, criação de jornais escolares manuscritos e produção de histórias ilustradas estimulam essa prática de forma criativa. Quando estudantes escrevem bilhetes para colegas, elaboram cartões para datas especiais ou registram pensamentos em diários pessoais, exercitam simultaneamente ortografia, coesão textual e expressão de ideias.
Ensinar adolescentes a revisar seus próprios textos desenvolve autonomia linguística. Ao reler redações e identificar marcas de internetês que escaparam durante a produção inicial, o estudante torna-se consciente de seus hábitos e aprende a autocorrigir-se. Essa metacognição linguística — pensar sobre o próprio uso da língua — representa um salto qualitativo no processo educacional.
Professores podem criar roteiros de revisão que orientem esse olhar crítico: verificar se há abreviações inadequadas, conferir acentuação, observar concordância verbal e nominal, avaliar pontuação. Com o tempo, essas verificações tornam-se automáticas, transformando-se em filtro mental que opera durante a própria escrita.
Paradoxalmente, os mesmos dispositivos que popularizaram o internetês podem servir como ferramentas pedagógicas. Aplicativos de leitura, plataformas de produção textual colaborativa e jogos educacionais digitais aproximam estudantes da escrita formal utilizando interfaces que lhes são familiares. O importante é garantir mediação adequada e objetivos claros.
Projetos de blogs escolares, podcasts educacionais e vídeos com roteiros escritos permitem que adolescentes produzam conteúdo digital respeitando normas linguísticas formais. Essas atividades demonstram que tecnologia e correção gramatical não são incompatíveis, desde que haja planejamento e orientação.
O ambiente doméstico influencia decisivamente o desenvolvimento linguístico infantil. Crianças que crescem ouvindo conversas ricas em vocabulário, que veem adultos lendo regularmente e que participam de diálogos sobre temas variados desenvolvem naturalmente maior facilidade com a escrita formal. O exemplo familiar funciona como modelo comportamental mais poderoso que qualquer lição escolar.
Estabelecer horários equilibrados para uso de dispositivos eletrônicos, valorizar jogos de tabuleiro que estimulam raciocínio verbal e incentivar atividades criativas como desenho e pintura contribuem para reduzir a exposição excessiva às telas. Contar histórias antes de dormir, estimular que crianças relatem acontecimentos do dia e celebrar pequenas conquistas acadêmicas reforçam a importância da comunicação cuidadosa.
Dominar a escrita formal transcende aprovação em vestibulares ou boas notas escolares. Trata-se de competência essencial para participação social efetiva. Cidadãos que expressam ideias com clareza, elaboram argumentos consistentes e compreendem textos complexos exercem direitos e deveres com maior autonomia. A fragilidade linguística limita oportunidades profissionais, restringe acesso à informação e dificulta a defesa de interesses pessoais e coletivos.
Por isso, equilibrar linguagem digital e escrita acadêmica não representa nostalgia pedagógica ou resistência às mudanças tecnológicas. Representa compromisso com a formação integral de estudantes capazes de transitar entre diferentes contextos comunicativos, utilizando a riqueza da língua portuguesa em suas múltiplas possibilidades. Escolas e famílias que trabalham juntas nesse objetivo preparam jovens não apenas para exames, mas para exercer plenamente sua humanidade em um mundo cada vez mais exigente em termos de competência linguística.
Para saber mais sobre escrita, visite https://folhaextra.com/noticia/31984/especialista-alerta-que-uso-frequente-da-internet-esta-prejudicando-a-escrita-de-criancas-e-adolescentes e https://dialogando.com.br/educacao/internetes-as-delicias-e-desafios-da-escrita-das-redes-sociais-na-educacao/